Uma nota
E quando acordou nada viu. Estava cego. Não de amor, como na noite que terminara, mas de algum produto que a vagabunda já ausente colocou em suas vistas antes de levar o dinheiro. Vai-se a grana e sobram os documentos, pensou. Mas e seus olhos?
Sem horizontes ou primaveras, sua vida estaria negra pra sempre, uma repetição eterna daquilo que sentiu quando seu irmão mais velho o trancou no armário trinta anos atrás, aos quatro. Desta vez, entretanto, não haveria força suficiente e a porta ficaria fechada.
Viveria por aí, sem poder arrumar o cabelo assanhado pelo vento, tropeçando pelas irregularidades da metrópole e tendo que fazer um esforço hercúleo para aprender braille ou não arrancar o pescoço ao se barbear. Era o fim dos passeios pelas galerias de foto da vizinhança. Era o fim.
E quando acordou nada viu. Estava cego. A cabeça doía. Ressaca de uísque de milho na mais pura tradição yankee. Esticou a mão e acendeu o quebra-luz. A vagabunda ainda estava ali ao seu lado, adormecida. O nome não lembrava. Vagabunda não precisa de nome. Nome é luxo de namoradas, concluiu. Olhou a carteira a puxou uma nota de cinqüenta. Não muito pra esquecer deste pesadelo idiota. O suficiente pro táxi dela. Ajustou o despertador dois minutos adiante e se trancou no banheiro.
