Sobre o azul

Zezinho sabia não conseguir passar muito tempo longe do mar. Dizia: "uma vez nele nos tornamos parte dele". Por isso resolveu viajar mais uma vez. Mas agora nada de malas, farda ou da hierarquia hermética existente nas embarcações de grande porte. Seria uma viagem a passeio. Férias com duração indeterminada, sem qualquer preocupação ou pretensão de voltar.
Depois de ter resolvido a maioria das pendências, se sentiu livre para partir. Deu um beijo rápido na esposa e fez um afago na mãe. Aos filhos desejou juízo. Os parentes e amigos que viu por último ganharam um sorriso. Um sorriso do qual, em gema, brotava uma leve satisfação. Então ele embarcou.
De início esta atitude, tão brusca, não foi bem aceita por ninguém. Afinal o mar parecia um assunto superado, matéria-prima para estórias a ser ouvidas pelos netos. E todos queriam, com muito gosto, desfrutar de sua companhia por anos. Mas não. O azul infinito embebido pelo cheiro de sargaço nunca largou de suas ventas. Porém com o passar dos dias aquele aperto que cutucava o peito de todos foi se esvaindo. No seu lugar surgiu um orgulho límpido e seguro dele ter feito parte de tantos bons momentos em suas vidas.
Então Zezinho, com os olhos vigilantes, voltou a singrar as águas tal e qual nos dias de sua mocidade. A brisa continua impulsionando seu instinto de buscar novos horizontes. Mudou apenas um pouco o cenário, pois a condução do navio agora é feita entre nuvens. Porém em sua mente não mudou em nenhum ponto a certeza de que, mais pra frente, ele voltará a reunir todo mundo como num grande almoço de sábado.
Vai, Zezinho. E vê se faz uma boa viagem.
——–
Hoje papai estaria completando 61 anos. Este texto é pra ele.
